Câmara Inversa

terça-feira, janeiro 24, 2006

Tenha já um analista!

A classe média brasileira tem um novo compromisso para suas tardes. Chega de dentistas, médicos ou dermatologistas. Nada de massagens com nomes orientais e que mais causam hematomas que alívio. O quente hoje é ter mesmo uma analista.

O mundo burguês é repleto de manias estranhas, cafonas e ausentes de sentido. E a última nova deste nosso universo particular parece se superar em todos os termos. Ir ao analista – que agradece pelos fartos cheques – tornou-se uma espécie de mania cult entre a classe média pseudo-intelectual. Sentar-se no divã é o point das terças e quintas ou segundas e quartas. E não importa se você sabe diferenciar um psicanalista de um analista. Não importa se você não sabe quem foi Freud, Lacan ou Jung. Você tem é que ter um analista!

Já se foi o tempo em que procurar ajuda psicológica era coisa para pessoas com traumas, alto nível de stress, neuroses ou problemas de relacionamento. Agora você não precisa ter nada disso. Se você perdeu o ônibus de manhã, o biscoito caiu no chão com a manteiga virada pra baixo ou não conseguiu sair com a estagiária gostosa do trabalho, pode sentir-se habilitado a procurar um analista.

Com um analista você poderá ser o cara

Mas para você gozar de prestígio entre seus amigos não basta ter um analista. Você tem que divulgar a informação. Aí sim o impacto terá efeito. Aí sim você será visto com um “membro do clube”. E é fácil perceber a busca desta honra. Estes destemidos analisados estão a nossa volta. Eles dominarão o mundo! Você quer ser um desses felizardos? Então aí vão algumas dicas:

- Quando você for chamado para um choop numa quinta-feira de forte calor diga para quem lhe fez o convite: - Não posso. Hoje é dia do analista. Seu amigo não só o perdoará pela recusa, como passará a reverenciá-lo.

- Durante uma reunião com a alta cúpula da empresa saia uns 20 minutos mais cedo dizendo: - Desculpe gente, mas hoje tenho analista. Em breve você será promovido.

- Quando houver a visita de um amigo, ligue para sua secretária e peça para ela transferir o seu analista de dia. Mesmo que você não precise. O que importa é que a pessoa perto de você saiba que você faz análise.

- A mais importante dica: você deve constantemente falar de seu analista. Para todos. E nunca de forma direta. Falar alto é a melhor saída. Diga o como ele é bom, charmoso e inteligente. Reclame de seus problemas e sempre - eu disse sempre - certifique-se que alguém está lhe escutando. Para finalizar sempre sugira o seu analista para alguém. Isso tornará você o cara.

Nenhuma novidade

É claro que este hábito é novidade apenas para brasileiros. Em Nova Iorque já é uma coisa velha, que começou lá na década de 70, impulsionada por pérolas como filmes de Woody Allen. Se bem que o trabalho de Allen era exatamente uma crítica mordaz a este comportamento neurótico de homens e mulheres desenraizadamente modernos.



Atualmente não importa se você acha que tem problemas ou não. No fundo todos os temos. Mas o que importa é que você tenha um analista e todos o saibam. Discuta em bares, fale sobre ele/ela ao telefone, deixe marcado em sua agenda, com letras garrafais, o dia da sua consulta. Se possível tenha mais de um analista.

Falando sério

Se por um lado ter um analista para qualquer palhaçada cotidiana tornou-se status de uma falsa inteligência, para aqueles que realmente precisam de ajuda psicológica por inúmeros outros motivos – burgueses ou não – a comunidade médica parece estar tomando um rumo extremamente preocupante: remédios.

Neste caso parece não haver paciência para longas sessões de análise. Uma receita de antidepressivo ou calmante basta. E quem lucra são as indústrias farmacêuticas, que movimentam bilhões em todo o globo, sonhando para que um dia a moda burguesa não seja mais o analista e sim a milagrosa pílula. Aquele que acaba com todos os problemas, como num passe de mágica. E aí, não estará revelada apenas a fragilidade de nossas relações contemporâneas, nossos laços puídos de amizade ou relações amorosas baseadas nas leis liberais de mercado. Será revelado também um caminho irreversível em que a moda será o próprio vício. E há até quem diga que esta migração já está em marcha. Esperemos que não.

2 Comments:

  • Muito bom o texto. Esta coisa de análise é tão subjetiva e mal interpretada que quem precisa não faz, e quem não precisa faz pra diaer que faz. Sei lá, vai ver também precisa. Acho que esta atitude faz parte de um vazio contemporâneo, a pessoa sabe que as coisas não estão bem e fazem análise ao invés de tentar melhorar, funciona mais ou menos como funcionava a confissão na Igreja Católica quando as pessoas acreditavam no catolicismo. Ih, já escrevi demais, pra variar.

    By Anonymous Gabi, at janeiro 25, 2006 11:14 PM  

  • Sobre a aprte final, a dos remédios: algumas pessoas os tomam ilegalemnte. É a única forma possível de tomá-los sem acompanhemtnto psicológico. Já fui um dos que reproduzia esse discurso de dizer que os remédios são reflexos de realidades sociais e só. É claro que não é só isso. A complexidade do cérebro leva alguns a não terem (por motivos diversos, genética, até) um bom desempenho de partes do cérebro fundamentais para sua inserção social satisfatória. Você com certeza conhece pessoas que se não tomassem remédios psiquiátricos estariam afastadas da sociedade, ou mal integradas, e desperdiçariam seu potencial. Tomar remédios é algo natural, é uma marca civilazacional contemporânea. Você os tomas pra dor de cabeça, gripe, etc? saiba que não há diferença. Você só toma quando precisa (espero), assim é feito pelos qe precisam de remédios psiquiátricos. Acredite, a simples condenação destes me soa como moralismo, preconceito derivado de desconhecimento, o qual já tive e superei.

    By Anonymous Anônimo, at fevereiro 17, 2006 1:00 AM  

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