Câmara Inversa

sexta-feira, janeiro 27, 2006


Radiografia do Medo



Em tempos de um governo ultraconservador, que cerceia liberdades clamando, e aqui esse termo religioso cabe muito bem, uma (já velha) cruzada em prol daquele mesmo substantivo que ele inibe, aparece um filme que nos lembra oportunamente de um conturbado e semelhante período na história daquele país. Em pré-estréia pela cidade (o filme estréia na sexta da semana que vem), o novo filme de George Clooney (na direção e no roteiro), "Boa Noite, e Boa Sorte", retrata a oposição que o repórter da rede americana CBS Edward R. Murrow, com o apoio do seu produtor, Fred Friendly, conduziu através do seu programa ao senador MacCarthy.

Refrescando a memória, esse foi o senador que conduziu uma verdadeira caça aos comunistas na década de 50, sendo, inclusive, o próprio cinema americano um dos mais prejudicados, com a prisão e até expulsão do país de cineastas, técnicos e atores. Vencedor do Leão de Ouro em Veneza de melhor diretor (o prêmio de melhor filme foi para o outro favorito da temporada, Brokeback Mountain), o filme de Clooney é uma pequena obra-prima, um salto impressionante depois do mediano "Confissões de uma Mente Perigosa".

Fotografado em preto-e-branco impecavelmente por Robert Elswit, responsável tanto por baboseiras como "Gigli" quanto por pérolas de cinematografia como os filmes do diretor Paul Thomas Anderson ("Boogie Nights", "Magnolia"), "Boa Noite, e Boa Sorte" consegue direcionar um olhar profundo sobre os bastidores do programa e da rede CBS (ela não é a santa que permitiu a Murrow toda a liberdade de confrontar o senador; perdas foram tidas). Não há um ator interpretando o senador, apenas imagens reais dele da época. Ainda assim, o filme não busca um teor documental. Trata-se de um recurso mais de revolta no sentido "isto é um filme, mas esse homem realmente existiu e realmente expôs um país inteiro ao ridículo de acusar uns aos outros sem provas. Um homem só foi responsável, em escala nacional, pela quebra de laços de fraternidade, amizade e confiança. E tudo por causa de um medo irracional e inconseqüente."

Que Murrow fez questão não apenas de expôr, mas também de ridicularizar, realizando um trabalho de levantamento jornalístico exemplar, principalmente diante do que observamos hoje nos jornais... No seu programa, jamais acusava levianamente, apenas apontava contradições do senador e evidências contra a acusação de práticas comunistas. Desvelando o uso fascista da "luta" contra o comunismo como arma para eliminar quem se opusesse às políticas de MacCarthy, Murrow expôs o senador ao ridículo e contribuiu de forma decisiva pro afastamento dele da cena política.

Interpretando Murrow, David Strathairn fornece a melhor performance da sua carreira. E uma das melhores do cinema dos últimos tempos. Contido, expondo todo o terror e medo em apenas um olhar, ele certamente foi ajudado pela forma como Clooney decidiu contar a história, privilegiando não o que ele mostra, mas o espaço entre situações mostradas; o filme é mais construído sobre o não-dito do que sobre o que mostra. E daí toda a tensão e suspense são gerados. Ao espectador, resta preencher as lacunas e, eventualmente, procurar em fontes oficiais mais sobre o acontecido.

Não existem situações-clichê. Não há uma cena de ação de Murrow tendo que salvar a sua família (ela sequer aparece). O romance entre os personagens de Robert Downey Jr. e Patricia Clarkson também obedece à lógica de não escancarar e de deixar espaços. O resultado final é mais do que positivo, deixando-nos aflitos por um próximo filme de Clooney.

Em tempo

Os Arctic Monkeys, tema de um post antigo, tiveram o primeiro cd, "Whatever People Say, That´s What I´m Not", lançado na Inglaterra essa semana. E... advinhem só?! É o cd de estréia mais vendido no primeiro dia da história! E caminha pra bater o recorde da semana... Até David Bowie largou um pouco do pé do Arcade Fire (pelo menos até o próximo disco...) pra declarar o quanto os moleques são bons.

De acordo com o que andei lendo, dois festivais brasileiros grandes já estão em negociação para trazê-los esse ano.

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O novo cd dos Strokes, "First Impressions of Earth", finalmente faz jus à expectativa gerada pelo de estréia, o ótimo "Is This It?", e frustada pelo segundo, o fraco "Room on Fire". Adoro "Juicebox", que começa parecendo trilha sonora do Batman e que cresce até um rock confessional de primeira, e "Heart in a Cage".

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Fiquei sabendo ontem também que outra banda que mencionei aqui deve estar se reunindo depois de anos de separação e de declarações de que era realmente fim. Quem? Smashing Pumpkins...

1 Comments:

  • Sinto-me feliz de conhecer esse recanto da cultura e informação. Não só o blog mas a cabeça desse fabuloso escritor que sabe nos transmitir as informações com de forma bem peculiar e interessante. Falando desse filme, já tinha ouvido falar. Só vamos esperar se a obra será d efato interessanto, já que dos filmes que conheço desse diretor, não gosto d enehum deles...
    Forte abraço e boa sorte a vocês todos!

    By Anonymous Luiz Cezar, at janeiro 29, 2006 7:11 PM  

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