Câmara Inversa

sábado, fevereiro 18, 2006

Cinema

Tratado sobre a Culpa na Vida Contemporânea



Aos 71 anos, Woody Allen mantém um ritmo invejável de 1 filme por ano; são realmente muito poucos os que conseguem tal façanha com essa idade. Ainda assim, uma boa parcela do público permanecia inquieta, acreditando que o diretor, roteirista, comediante, clarinetista e ator perdera o seu toque, que seus filmes não eram mais como antes.

Com relação a este último ponto, eles estavam certos. "Ponto Final", o novo filme de Allen, é radicalmente diferente de tudo que ele fez até hoje, portando um certo grau de parentesco com o excelente "Crimes e Pecados". Ainda assim, é diferente. O humor tão comum a ele quase não aparece nesse. "Ponto Final" é composto por uma atmosfera sombria, em parte criada pelo roteiro, em parte pela direção de fotografia. Nos últimos anos, Allen tem trabalhado com diversos diretores de fotografia europeus... Não sei de onde ele os tira... Fato é que esse é um aspecto técnico irrepreensível dos seus filmes.

A atmosfera única fica explícita logo nos créditos que abrem a produção: pela primeira vez, o jazz cede o lugar à ópera, com peças magníficas, como "Je Crois Entendre Encore", da famosa "Carmem", de Bizet. Outros elementos também são novos à filmografia do diretor, como o uso da câmera lenta. Na superfície, "Ponto Final" pode ser lido como um thriller sobre um tenista que, de repente, encontra na amizade com um casal de irmãos ricos a oportunidade de figurar numa classe social mais alta. Nessa camada, Allen construiu um ótimo filme, recheado com excelentes atores (Scarlett Johanson não poderia estar mais linda e perfeita no papel), mas que sofre com alguns defeitos.

Que são instantaneamente esquecidos, quando olhamos o discurso que Allen constrói por trás. É quase como se ele tivesse escrito o roteiro escutando uma faixa obscura do cd "Ok, Computer", do Radiohead (algo que ele obviamente não fez ou faria), chamada "Fitter, Happier", em que nenhum instrumento é tocado, mas escutamos uma voz robótica enumerando uma espécie de guia para uma vida saudável - algo mais ou menos como vemos na Revista O Globo todo domingo, por exemplo.

Woody Allen exibe uma visão pessimista (e, ao meu ver, razoavelmente realista) das relações humanas como ocorrem hoje, sem ser moralista. Ou talvez sim, mas de forma indireta. Está tudo lá: a vida confortável X a paixão, a ética X o "se dar bem" etc. Sendo que o segundo lado dessas oposições, para Allen, sempre perde. Os homens, no filme, estabelecem sempre uma relação com suas mulheres a partir de uma "coisificação" (seja o desejo de dinheiro e status, seja a carência afetiva). Nem elas, na verdade, fogem a isso, vide a maneira robótica como a esposa do tenista deseja engravidar de qualquer forma (a última linha dela no filme é, aliás, genialmente cômica), a forma como a matriarca da família rica trata os casos amorosos dos filhos, o jeito como o patriarca mantém o controle sobre os que estão ao seu redor.

Se "Ponto Final" traça um paralelo com o "Crime e Castigo" de Dostoievsky, aqui a culpa não é apenas o principal castigo do personagem central, mas também de todos aqueles - Woody Allen incluso - que enxergam (impotentes?) certos aspectos da vida contemporânea.

4 Comments:

  • Fitter, happier, more productive, not drinking too much, etc.

    Única música (?) do Radiohead que às vezes eu pulo... Mas é uma boa reflexão. Vou ver o filme, estou crercado de grandes expectativas.

    valeu!

    www.perolasaospoucos.blogspot.com

    By Blogger Pedro Paulo Garcia, at fevereiro 19, 2006 12:57 PM  

  • Vejam uma entrevista que Allen deu a Geneton Moraes Neto em 1996:

    GMN : Você já confessou que prefere os romancistas russos, como Dostoievski, porque eles se ocupam de “temas espirituais”, ainda que outros romancistas, como Flaubert, sejam ‘tecnicamente superiores’. Você- que também se ocupa de temas espirituais no cinema- gostaria de ser visto como o Dostoievski das telas?

    Woody Allen- “Não necessariamente. Sou muito mais engraçado do que Dostoievski”.

    By Blogger Daniel Lopez, at fevereiro 20, 2006 7:02 PM  

  • Nossa, essa foi lá do fundo dos arquivos, hein?! Mas nesse filme, ele parece ter esquecido disso, a não ser pela dupla de policiais que aparece no final...

    By Blogger Fabio Silveira, at fevereiro 21, 2006 8:28 AM  

  • Ah, Fabinho! Sejamos mais otimistas! Há diversas pitadas do humor "alleniano" durante o filme... Eu só fiquei com uma pulga atrás da orelha no final: quantas pessoas matariam a Scarlett Johanson para manter um apartamento com aquela vista? Hum... Beijo, primo!

    By Blogger Igor Silveira, at março 05, 2006 1:27 AM  

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