Câmara Inversa

domingo, fevereiro 26, 2006

Cinema

Considerações sobre o Careca


Não sou uma pessoa de ligar para o Oscar como premiação; nos últimos anos, a tendência em premiar o que havia de mais convencional no cinema afastou qualquer verdadeiro amante do cinema. Preciso listar? Ok, um refresco de memória:

2002 - Uma Mente Brilhante - Qualquer um que rever hoje, percebe o quanto é medíocre. E Ron Howard, diretor medíocre por natureza, levou o prêmio de ninguém menos do que David Lynch, Robert Altman e Peter Jackson, no primeiro e melhor episódio da saga do anel. Se a história era matemático com problema, a dica da vez era assistir à magistral peça "A Prova", com a excelente Andréa Beltrão.

2003 - Chicago - Qual é a importância desse musical para o cinema e a nossa vida, de novo? Ah, tá... E nesse ano tinha o excelente "As Horas"...

2004 - O Senhor dos Anéis - O Retorno do Rei - Tudo bem, esse o Peter Jackson merecia, apesar de o seu concorrente, "Sobre Meninos e Lobos", ser o melhor filme que Clint Eastwood já dirigiu. E isso não é pouco...

2005 - Menina de Ouro - Merecido, até porque, dos que concorriam, era mole o melhor.

Se retorcedermos ainda mais, podemos de lembrar de anos como 2000, em que nenhum dos indicados (Gladiador, o vencedor, O Tigre e o Dragão, Chocolate, Erin Brockovich e Traffic), talvez só com exceção deste último, possui uma ressonância tão forte hoje quanto um pequeno e magistral filme esquecido, chamado "Billy Elliot", um tratado sobre os (tão atuais) anos de ferro de Margaret Thatcher na Inglaterra.

Este ano, contudo, eu ligo. E muito. A principal razão está não apenas na qualidade da maioria dos indicados, apesar de ela contar muito: "Brokeback Mountain" é o melhor (sim!) filme de Ang Lee até hoje e um retrato de uma geração inteira centrado em dois indivíduos e as paisagens de um país em mudança ao seu redor (um filme ultra subversivo para os padrões de hoje, em que a renúncia a um amor sequer constitui uma opção) - algo que um dos roteiristas já fizera no magistral "A Última Sessão de Cinema"; "Boa Noite, e Boa Sorte" é, espero, a primeira obra-prima de George Clooney, um filme impecável em todas as suas escolhas; "Munique" é o melhor filme que Spielberg já fez e segue uma estrutura incomum aos filmes hollywoodianos de hoje, muito próxima ao que se fazia na décadas de 60 e 70 e que o próprio diretor ajudou a destruir com filmes como "Tubarão".

Os outros dois principais indicados não contam muito pra mim, contudo. "Crash" é um péssimo filme; o diretor e roteirista Paul Haggis (o responsável pelo roteiro inconstante de "Menina de Ouro") parece ter um complexo de Deus e achar que o espectador é burro o suficiente pra engolir as tolices e clichês que desfila na tela. Infelizmente, a crítica de lá e alguns críticos do Globo foram. Ah, e não nos esqueçamos que tem Sandra Bullock... "Capote" falei há pouco tempo: não passa de um filme mediano a competente.

Se individualmente a perspectiva dos indicados é muito boa, ela fica ainda mais interessante quando olhamos o todo. A grande maioria trata de dois temas de forte repercussão: a política e o homossexualismo. No caso do primeiro, destaque para os filmes de Clooney, Spielberg, "Paradise Now", "Capote", "Brokeback Mountain" (mais político diante de um governo conservador como esse impossível!) e os ótimos "Syriana" e o "O Jardineiro Fiel". No segundo caso, além do filme de Lee, estão "Capote" (ele era homossexual) e "Transamerica" (um excelente filme sobre um travesti que, às vésperas de uma operação de mudança de sexo, descobre que tem um filho adolescente - falo mais dele numa outra oportunidade). Isso sem contar filmes com temáticas mais adultas, como o novo de Woody Allen.

Foi como se os membros da Academia tivessem acordado de uma ressaca e visto que premiar filmes de fantasia ou quaisquer dramas não era suficiente. Eles precisavam ter o que dizer. Precisavam explorar o que uma linguagem tão rica e complexa como a cinematográfica tem a oferecer. Não sei ainda se vou assistir. De qualquer forma, a declaração foi feita. A política parece novamente bem-vinda no mainstream do cinema americano. E eu torço que daqui em diante, esteja cada vez mais presente. Ah, tem a cereja no topo do sundae (que leva calda de política também): o Oscar honorário ao grande Robert Altman.

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Carnaval pacato... Tava vendo a MTV outra hora. Se sempre fosse assim (só passasse clipes), eu seria espectador assíduo...

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Bom, resolvi copiar meu caro companheiro Daniel e dar uma de pirata para o bem da cultura, já que as bostas das rádios cariocas não tocam o que de melhor acontece no mundo da música. Abaixo, o link para um arquivo com cinco músicas de algumas das bandas de rock atuais de que mais gosto (viu, Gabi, não pode reclamar mais que não consegue achar :-)). Depois me digam o que acharam:

1 - Arcade Fire - Neighbourhood #1 (Tunnels) - primeira faixa de cd de estréia do grupo canadense. Atenção ao piano de abertura e à letra e à música que parecem nos transportar direto para os nossos sonhos mais profundos e nostálgicos. Fizeram o melhor show que vi até hoje...

2 - Arctic Monkeys - Perhaps Vampires is a Bit Too Strong - faz parte do cd de estréia dos moleques ingleses. Começa como uma surf music, envereda por um rock direto (em que voz acompanha ritmo de guitarra e baixo), para depois ter uma parada e uma quebra de ritmo fenomenais. Eles sabem tocar...

3 - Death Cab for a Cutie - We Looked Like Giants - um cruzamento de Radiohead com um rock mais comercial. Mistura rock orgânico com eletrônica como poucos fazem hoje.

4 - Mercury Rev - Opus 40 - o grupo britânico faz um rock que parece nos transportar pra outra dimensão, repleta de beleza e encantamento com a bela voz do vocalista e os arranjos de órgão.

5 - Belle and Sebastian - Sukie in the Graveyard - uma das faixas do novo cd da banda escocesa. Clima up (num cruzamento de Beach Boys com Frank Zappa), letras irônicas e literariamente perfeitas, além de linhas de baixo excepcionalmente poderosas, que fizeram The Edge e Adam Clayton, do U2, entrarem no site da banda para elogiar (o álbum novo como um todo, mas destacaram essa música).

http://rapidshare.de/files/14223884/Rock_Contemporaneo.zip.html

2 Comments:

  • Ah, assim fica muito mais fácil!
    Quanto ao Oscar, eu sou muito comum para dizer que não gostei de todos os filmes que ganharam nos últimos anos. Meu ponto de vista é: O Oscar não é uma festa para prestigiar o melhor do cinema, no quesito qualidade. É triste, mas o Oscar se preocupa em dar visibilidade ao cinema como um todo, como se fosse apenas mais uma estratégia de marketing. É capaz que Brokeback ganhe a estatueta de melhor filme este ano, mas não posso dizer que seja pela qualidade do filme, acho que as chances estão mais sobre todo o burburinho que vem causando. Não assisti o filme, não tenho opinião sobre ele. Mas acho que as razões de fora da arte são as que vão decidir este prêmio.

    By Blogger Gabi, at fevereiro 28, 2006 9:36 AM  

  • Grande Fábio, tá escrevendo cada vez melhor e com opinião muito forte, ótimo. Infelizmente num pude ver os filmes indicados ao oscar, devido a uma virose que ainda por cima me deixou uma cinusite. Apenas vi John and June, que é bem dirigido, tem bons atores, mas não é muito relevante pra linguagem do cinema. Lembra muito o Ray. Vale por se tratar da vida do grande Johnny Cash.
    Não sei se você conhece aquela série animada Aeon Flux, Peter Chung, que passava na MTV, que agora foi adaptada pras telas. O filme ainda num vi, mas todos estão metendo o pau.
    Abraços!!!

    By Blogger Leo Siqueira, at fevereiro 28, 2006 6:35 PM  

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